Nenhum negro e só duas mulheres. Pleito do Inter escancara falta de inclusão

Para os próximos três anos, não existe possibilidade de uma pessoa negra chefiar o Clube do Povo

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A torcida do Internacional ou pelo menos parte dela se orgulha de torcer para um clube que tem em seu DNA um caráter popular, inclusivo e teoricamente sem preconceitos. Porém, tal histórico não se reflete nos postulantes ao Conselho de Gestão nas eleições de 2020.

No atual pleito são quatro chapas com cinco nomes cada. Dos 20 candidatos, nenhum negro aparece entre os concorrentes e apenas duas mulheres. Ou seja, o clube se diz inclusivo, mas a realidade aponta um cenário com um monte de homens brancos com rara presença feminina.

Mulher negra e conselheira do Internacional, Lueci Silveira acredita que a exclusão de negros postulantes aos cargos máximos do Inter vai além de um clube de futebol.

“O futebol é um reflexo da sociedade. Quantas vezes já não escutamos isso, não é verdade? Tenho a compreensão que isso também se traduz na falta de representatividade de negros e negras nos espaços de poder, de decisão e de gestão. A representatividade, um conceito visto como irrelevante por determinados grupos sociais e como ‘mimimi’ por outros, é essencial para um espaço se tornar mais democrático. Digo isso, pois sou mulher negra e conselheira do Sport Club Internacional pelo Movimento O Povo do Clube e atual candidata pela renovação do mandato, e mesmo estando perto de completar 4 anos de atuação pelo Conselho Deliberativo, ainda vejo que somos minoria dentro de um dos órgãos fundamentais do Clube”, disse a bibliotecária-documentalista, licenciada em História e mestranda em Educação.

“Negras e negros podem ter mais visibilidade dentro da torcida, mesmo que tenhamos assistido nos últimos anos à elitização dos grandes estádios. Mas quantos destes e destas se veem nos espaços de poder, gestão e deliberativo do Clube? Coloco isso como racismo em nível estrutural. Por isso, fundamental que o Clube e os próprios movimentos e grupos políticos estimulem e construam práticas antirracistas, complementou.

Se dentro das quatro das linhas os negros se sobressaem com talento puro, o mesmo cenário não se vê nas gestões de futebol. Não que não haja qualificação, o que não acontece são oportunidades.

“No ‘país do futebol’ do Rei Pelé, de tantos outros jogadores negros consagrados como melhores do mundo; de Marta; de Formiga, não tem a mesma representatividade negra em cargos de comando e gestão do futebol, principalmente quando envolve a figura de uma só pessoa na liderança. Seja treinador(a), dirigente ou presidente de clubes e federações; nas instâncias deliberativas, através de conselheiros(as). É preciso que coloradas e colorados façam a reflexão de qual a proporção de pessoas negras e brancas trabalhando pelo Clube? E, refletir mais profundamente, sobre como fica essa proporção no caso dos cargos e posições de maior destaque?”, finalizou.

Abaixo, os brancos que concorrem à gestão do Inter:

Divulgação

Chapa 01

Presidente: Guinther Spode
1º Vice-presidente: Gustavo Juchem
2º Vice-presidente: Mauri Luiz da Silva
3º Vice-presidente: Alexandre Tesheiner Bessil
4º Vice-presidente: Claudio Affonso Amoretti Bier

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Chapa 03

Presidente: José Aquino Flôres de Camargo
1º Vice-presidente: Eduardo Otávio Hausen de Souza
2º Vice-presidente: Luciana Paulo Gomes
3º Vice-presidente: Ubaldo Alexandre Licks Flôres
4º Vice-presidente: Léo Moura Centeno Júnior

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Chapa 04

Presidente: Cristiano Pilla Pinto
1º Vice-presidente: Letícia Vieira de Jesus
2º Vice-presidente: Ivandro Rodrigo Morbach
3º Vice-presidente: Fabio Grossele da Rosa
4º Vice-presidente: Rodrigo Navarro Lins de Aguiar

Divulgação

Chapa 05

Presidente: Alessandro Pires Barcellos
1º Vice-presidente: Dannie Dubin
2º Vice-presidente: Arthur Caleffi
3º Vice-presidente: Luiz Carlos Ribeiro Bortolini
4º Vice-presidente: Humberto Cesar Busnello




Letícia Vieira de Jesus concorre como 1ª vice-presidente na Chapa 04 e Luciana Paulo Gomes como 2ª vice-presidente na Chapa 03 são as damas que tentam algo na eleição colorada. Presidente do Conselho Deliberativo do Inter, Lenize Doval afirma que há uma luta para que as moças apareçam mais nos clubes.

“A mim parece algo cultural. São paradigmas a serem quebrados. É uma luta diária por inclusão. Clubes de futebol, culturalmente, é espaço masculino. Há pouco ganhamos lugar no CD, estamos invadindo as arquibancadas. Cavando nosso espaço com perseverança.”

Lenize fala que o CD do Inter é um espaço masculino com total razão. Tanto que apenas em 1984, com Jessy Mancuso, o clube teve a primeira mulher dando seus pitacos no Conselho. Em 111 anos de história, a médica veterinária é a primeira dama que o ocupa tal cargo. Dos 342 atuais conselheiros, apenas 26 são mulheres, 7,6% do total. Lenize diz que um erro dela gera críticas mais fortes do que se um homem estivesse no posto.

“Falando especificamente da presidência do CD, além de não ser da área jurídica, sou mulher. Tenho que redobrar o cuidado, pois escorregões masculinos são aceitáveis, passam até despercebidos. Ao “invadir” esse espaço, os olhos todos estão voltados as minhas ações, minhas atitudes. As críticas serão mais contundentes.”

Mesmo sendo um ambiente tradicionalmente masculino, a colorada não vê hostilidade nos bastidores. “Não considero um ambiente hostil, mas um tanto peculiar. Como em qualquer outro ambiente que é ou era considerado masculino”, conclui.

As eleições do Inter estão marcadas para 26 de novembro para os conselheiros votarem nas chapas para o Conselho de Gestão. Em 15 de dezembro os sócios votam nos dois nomes mais votados, além de renovar 150 cadeiras no Conselho Deliberativo.

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